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Campeão do mundo, Mauro Silva relembra momentos do título de 1994

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Mateus Bezerra,
especial para o site da FPF*

A Copa do Mundo é o ápice no futebol. Não à toa, apenas uma reclusa lista de jogadores já provou desse elixir. Grandes nomes do esporte mais popular do mundo se esforçaram para tal objetivo, mas acabaram não preenchendo essa lacuna em suas carreiras. Este não é o caso de Mauro Silva. O antigo camisa 5 da amarelinha, e atual vice-presidente da FPF, relembra a conquista do tetracampeonato em 1994 e revela a sua visão sobre o futebol brasileiro.

“É o máximo. É a realização de um sonho. Porque eu sempre digo que, quando você começa a jogar futebol, você sonha em vestir a camisa da Seleção Brasileira. Depois, quando você realiza esse sonho, o próximo passo é jogar a Copa do Mundo. E, claro, vestir a camisa da Seleção Brasileira, participar de uma Copa do Mundo e ter o privilégio e a honra de ser campeão, isso é imensurável”, afirmou.

13 de julho de 1994: Brasil e Itália se enfrentavam para decidir quem levaria o tetracampeonato e a taça mais cobiçada do futebol. A partida terminara sem gols, tanto no tempo regulamentar quanto na prorrogação. Nas penalidades, Baresi isolou a primeira cobrança italiana. Na sequência, Pagliuca defendeu o chute de Márcio Santos. As próximas duas cobranças de cada seleção foram convertidas, com Albertini e Evani para a Itália, e Romário e Branco para o Brasil. Depois, Taffarel cai à esquerda para espalmar a tentativa de Massaro. Dunga marca para o Brasil e Roberto Baggio era o responsável para manter os italianos na disputa…Mas o resto da história todos já sabem.

O que nem todo mundo sabe, é que para conquistar o mundial, os brasileiros enfrentavam um adversário muito além das quatro linhas. “Aqueles 24 anos (sem conquista) pesavam muito e atrapalhavam emocionalmente. Além disso, as cobranças eram muito intensas e as críticas também. Algumas delas ultrapassavam a linha do profissional e atingiam o lado pessoal, inclusive”, revelou o campeão mundial.

A Seleção Brasileira enfrentava um jejum de 24 anos sem vencer uma Copa do Mundo. A última conquista havia sido em 1970, no México, no esquadrão que tinha Pelé, Carlos Alberto, Rivellino, Clodoaldo, Jairzinho, Gerson e companhia. Uma coincidência é que ambas as seleções eram dirigidas pela dupla Parreira e Zagallo, mas a diferença é que em 1994, o Brasil chegou desacreditado devido à campanha nas Eliminatórias, quando conseguiu a classificação na última rodada com vitória por 2 a 0, diante do Uruguai, com dois gols de Romário.

Trajetória
Na Copa do Mundo, a Seleção Brasileira não encontrou dificuldades na fase de grupos. Venceu a Rússia na estreia, por 2 a 0, com gols de Romário e Raí, Camarões no confronto seguinte, com mais um tento de Romário, além de Márcio Santos e Bebeto. No último jogo, o empate com a Suécia, por 1 a 1, mais uma vez Romário decidiu no ataque e ajudou na classificação do Brasil como primeiro do Grupo B, com sete pontos, seis gols marcados e apenas um sofrido.

“Eu não tenho dúvidas que o equilíbrio era o ponto forte daquele time. A Copa do Mundo é uma competição extremamente difícil. Desde a primeira fase, a margem de erro é zero. Não é à toa que muitas grandes seleções nunca conquistaram. Poucos países têm o privilégio de ter uma seleção campeã do mundo, isso demonstra a dificuldade. Se você não tiver uma grande seleção, um time muito forte, com todas as posições muito equilibradas, você não ganha. É uma análise muito simples falar de Bebeto e Romário, principalmente porque se trata de um esporte coletivo. O Brasil sofreu apenas três gols. Não preciso nem falar do talento do Taffarel, do Cafu, Jorginho, Leonardo, Raí, Ronaldo no banco, Dunga, que fez uma copa brilhante. Ou seja, se você não tem um super time, uma super seleção, você não ganha. Não basta só você ter um time tecnicamente melhor para você vencer”, analisou Mauro Silva.

O primeiro adversário na fase de mata-mata foram os Estados Unidos, país sede da edição. O embate foi no dia 4 de julho, dia da independência norte-americana. O estádio lotado, com cerca de 85 mil pagantes, não foi o suficiente para parar a determinação brasileira, que teve o lateral esquerdo Leonardo expulso ainda na primeira etapa após cotovelada em Tab Ramos. O magro 1 a 0, com gol de Bebeto após passe de Romário, fez a comemoração terminar em samba, apesar da perda de Leonardo, suspenso pelo resto do mundial.

Nas quartas de final, a vítima seria a Holanda. Apesar de não ter sido um adversário fácil, o equilíbrio, considerado por Mauro como ponto forte daquela equipe, se sobressaiu mais uma vez. Mesmo com o Brasil abrindo 2 a 0, com Bebeto e Romário, antes dos 20 minutos do primeiro tempo, a Laranja Mecânica buscou o empate na etapa inicial. No entanto, Branco, lateral que substituía Leonardo, cobrou uma falta espetacular, e contou com a acrobacia do “Baixinho” para decretar a vitória por 3 a 2 e classificação à semifinal.

No confronto seguinte, o Brasil teria a Suécia novamente pelo caminho. Embora os esforços da equipe sueca de tentar levar a partida para os pênaltis, Jorginho acertou belo cruzamento e, mesmo entre gigantes, Romário ganhou a disputa entre dois marcadores e marcou de cabeça para levar a seleção canarinho à final contra a Itália.

É campeão
Depois da cobrança de Roberto Baggio, Mauro viveu um turbilhão de sentimentos. “Você estar ali, naquele momento, dentro do campo, relembrando tudo que você passou, toda sua trajetória, todo seu sofrimento, junto com o que eu passei com a minha família. Tantas pessoas que me ajudaram, torceram por mim. Pensava: caramba, consegui. Isso aqui é o máximo. Foi o dia mais feliz da minha vida esportivamente falando”, afirmou o ex-jogador que tem o seu nome cravado na eternidade do futebol.

“Demora até uns dias para a ficha cair e você se dar que conta que realmente é campeão do mundo, que é verdade, que aconteceu. Somos uma das referências do mundo, onde os grandes jogadores da história do futebol vestiram a camisa da Seleção Brasileira, e muitos deles não tiveram esse privilégio. Então é o máximo. É a realização de um sonho de criança, uma honra, uma alegria. E, ao mesmo tempo, você acaba escrevendo seu nome com letras de ouro no futebol brasileiro. E, por outro lado, você tem uma grande oportunidade de dar alegria ao povo brasileiro”, completou.

O gol que Mauro Silva não fez
Na decisão diante da Azzura, o volante vivenciou um momento que, segundo ele, o acompanha até hoje. A partida estava equilibrada, com poucas oportunidades. Foi quando Mauro arriscou um chute da intermediária, o goleiro Pagliuca falhou e a bola bateu caprichosamente na trave. “Até hoje ainda torço para aquela bola entrar. Mas felizmente, como o Brasil acabou conquistando o título, aquele lance acabou não fazendo falta. Fomos para os pênaltis e acabamos conquistando. Se a gente não tivesse ganho aquela Copa, eu iria lamentar muito aquele lance”, recordou com bom humor.

Falta de títulos
“O tempo que a Seleção estava sem títulos atrapalhava, porque havia uma cobrança e desconfiança muito grande por parte da imprensa. Tanto que se você pegar a sequência, o Brasil ficou 24 anos sem ganhar uma Copa do Mundo. Depois chega em 1998 na final de novo e em 2002 conquista novamente. Prova que, uma vez que se tirou esse peso das costas da Seleção Brasileira, o desempenho na sequência mudou. Deixa um ambiente de muito mais confiança, de muito mais tranquilidade. Aquela conquista era necessária”, sintetizou.

Segundo o vice-presidente da FPF, o futebol brasileiro não deveria viver hiatos dessa maneira. “O futebol brasileiro não deveria viver momentos assim. Inclusive, se não ganharmos no Catar, vamos chegar novamente aos 24 anos sem ganhar um título. É muito tempo para um futebol tão forte. Não vou falar que somos o melhor futebol do mundo, porque infelizmente não somos. Temos muitas coisas a melhorar e corrigir. Em um determinado momento nós fomos sim o melhor futebol do mundo. Talvez, inclusive, essa arrogância, essa prepotência de imaginar que somos o melhor futebol do mundo, acho que isso temos que deixar os outros falarem sobre isso. Não nós mesmo ficarmos nos autoproclamando”, disse.

Receita do campeão
Para evitar uma nova resseção de títulos, o experiente campeão indica o caminho. “O recado que eu daria é que sei que a Copa do Mundo é uma missão muito difícil. Mas quanto antes a gente ganhar novamente menos complexo fica. Para isso, é muito importante priorizar os interesses coletivos do que os individuais. Não é fácil, mas é a receita que a gente utilizou. Tivemos muita união. Aquelas mãos dadas ao entrar em campo, não era para fazer marketing ou para a imprensa ver. Realmente era porque o time era muito unido. A gente se reúne até hoje. Somos amigos e mantemos esse ambiente de união que construímos até hoje. Isso que eu diria ser o caminho para conquistar um mundial. Com tudo isso, mesmo assim, não é fácil, mas as chances aumentam dessa forma”, finalizou.

Foto 1: Rafael Ribeiro/CBF
Foto 2: AE/CBF
Foto 3: Rodrigo Corsi/FPF
Sob supervisão de Luiz Minici*

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